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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Dias Perfeitos

Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Gênero: Ficção nacional, romance policial, suspense
Páginas: 274
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-2401-5

Conheci este livro de uma forma muito engraçada. Um amigo me presenteou no semestre passado e me disse apenas o seguinte: Leia, mas não procure resenha e nem nada, apenas leia.

Eu nunca li um livro sem saber ao menos do que se tratava, mas aceitei o desafio e o fiz. Devo admitir que tive um pré-julgamento pela capa, mas fui surpreendido completamente.

“Dias Perfeitos” conta a história de Téo, carioca, filho de uma cadeirante e estudante de medicina. Ele vive uma vida pacata, sem muitas emoções e sem muitos amigos. Téo é um rapaz antissocial, mas para não ser injusto, ele tem uma única amiga, se é que podemos chamar de amiga, mas é o mais próximo disso que ele possui. Ela é Gertrudes, uma senhora que sempre está em suas aulas de anatomia. O único problema é que Gertrudes é um cadáver.

Entretanto, em certo dia, a vida de Téo muda quando ele vai contra a sua vontade a um churrasco em uma mansão carioca. Lá ele encontra Clarice, estudante de história da arte e aspirante a roteirista. Ela é o completo oposto dele, descontraída, boemia e aventureira. E isto acaba fascinando-o. Para ele alguma coisa havia mudado por conta dela, uma obsessão surgira pela moça.

“Algo havia explodido dentro dele. Algo que ele não conseguia nem queira explicar. Ainda que não soubesse o sobrenome de Clarice, onde ela morava ou em que universidade cursava história da arte, ele tinha o número do celular dela e isso os tornava íntimos.”
Dias Perfeitos, p. 21.

Após conseguir o telefone de Clarice, Téo tenta entrar em contato mas acaba falhando. Ele começa a perseguir Clarice e descobre onde ela mora. O rapaz volta de carro ao endereço, mas a jovem está de saída. Ele a persegue durante o passeio noturno pela Lapa até que Clarice, depois de quase ser atropelada, adormece bêbada na calçada. Téo a leva para casa e encontra com a mãe dela, e o inimaginável acontece: Clarice desperta e apresenta Téo como namorado. Isso o deixa confuso, mas ele acredita que Clarice não falou da boca pra fora. E no dia seguinte ele resolve visitá-la e leva consigo uma coletânea de contos de Clarice Lispector.

Téo é recebido por Clarice que está arrumando algumas malas na sala. Ela está para sair em viagem para trabalhar em seu roteiro. O diálogo entre os dois entra em ebulição quando Clarice confronta Téo sobre as ligações estranhas que ele fizera para ela fingindo ser outra pessoa. As coisas pioram até o ponto de ela deixar claro que nada nunca acontecerá entre os dois. Irritado com as acusações e com a declaração de Clarice, Téo desfere um golpe nela com o livro de mais de quinhentas páginas e capa dura que comprara para presenteá-la, deixando-a inconsciente.

Isso inicia uma jornada que leva os dois até Teresópolis, destino escolhido por Clarice para trabalhar no roteiro. Entretanto, ela está presa a Téo contra a sua vontade e a partir daí uma série de eventos se inicia levando ambos ao extremo. Muita coisa irá acontecer nesta viagem. E tudo mudará, inclusive os dois.

É com um texto extremamente envolvente que Raphael Montes nos conta esta história. Você se envolve tanto na leitura que nem percebe o tempo passando a sua volta. E ele construiu um suspense delicioso, pois soube bem onde terminar um capítulo e iniciar outro. O livro não é nada previsível, o que me deixou apaixonado por ele. Gosto de livros que me surpreendem a cada capítulo, e “Dias Perfeitos” fez isso com excelência.

Geralmente, nos romances policias temos: o crime; o criminoso e a perseguição. Esses são elementos que constituem um romance policial, mas Raphael Montes quebra esta tradição e foca no crime; no criminoso e nas consequências que o crime causará no criminoso e em sua vítima. Isso foi o ponto que mais me agradou no livro e me despertou a vontade de ler mais livros do gênero.

Agoniante, delicioso e imprevisível define “Dias Perfeitos”. Você não pode deixar de ler este livro que irá te envolver e te deixar de boca aberta com o final. Envolva-se e viva dias perfeitos na companhia de Téo e Clarice.

Excelente





Citação favorita: "Quando um homem tem tanta vergonha de si mesmo e se vê desmascarado, não restam muitos caminhos, Clarice. O suicídio é a única saída"
Téo





sábado, 26 de abril de 2014

Barba ensopada de sangue

Título: Barba ensopada de sangue
Autor: Daniel Galera
Gênero: Romance
Páginas: 422
Ano: 2012
Editora: Companhia Das Letras

Eu poderia fazer uma introdução como sempre, mas este livro não me permite. Quem em sã consciência coloca o título Barba ensopada de sangue em um livro?

Sim, essa foi a primeira coisa que eu pensei quando vi este título forte em uma capa com uma cor tão intensa. E se eu julgasse um livro pela capa, diria que Barba ensopada de sangue é um thriller policial ou até mesmo algum livro de terror interessante, mas eu não costumo julgar um livro pela capa, resolvi ler. E um amigo da faculdade falou brevemente do livro, e ai a minha curiosidade só aumentou.

Barba é um livro que dá a impressão de início pelo fim. Você sente que o começo do livro é o final da história, mas não é. O final é apenas o começo de tudo.

Aqui temos um protagonista sem nome e que sofre de uma série doença. Ele não consegue se lembrar do próprio rosto ou o das outras pessoas, mas vamos com calma. Vou chama-lo de o nadador, assim eu não me perco e não deixo vocês perdidos.

O livro começa com a visita do nadador à casa de seu pai. Lá ele ouve uma história peculiar sobre o seu velho pai e o avó que nunca conhecera e que nunca irá conhecer, pois, segundo seu pai, o avó morreu anos atrás em uma cidade litorânea ao sul de Florianópolis chamada Garopaba. Uma história um tanto quanto interessante, pois ao que tudo indica o avó foi assassinado em público por alguns moradores da pequena cidade, mas nada se sabe ao certo, pois a polícia da cidade vizinha nunca chegou a investigar o caso. O diálogo entre pai e filho se complica quando o pai do nadador conta que irá cometer suicídio e pede para o filho que ele sacrifique a velha cachorra já debilitada, pois ele não deseja que ela definhe até a morte.

Após a inevitável morte do pai, o nadador decide deixar Porto Alegre e parte ruma à cidade de Garopaba, e com ele a velha cachorra de seu pai. Ele não consegue sacrificar a pobre cachorra e acaba se instalando na pequena cidade para descobrir um pouco mais sobre seu avó, mas ao que parece ninguém da cidade se lembra do tal avó. O que lhe parece estranho, pois segundo a história de seu pai, o avó era uma pessoa com presença forte e encrenqueiro. O que faz surgir algumas perguntas sobre esta pacata cidade e seus típicos habitantes. Teria seu avó sido assassinado pelos locais? O que os motivaram? E principalmente, o que há de errado com esses habitantes?

E é durante a sua estadia na cidade que o nadador tenta desvendar este mistério sobre seu avó. Entretanto, apesar dessas perguntas, não se engane. Barba ensopada de sangue não é um thriller policial, muito pelo contrário. Pois é durante todo este processo que ele acaba vivenciando algumas paixões e consequentemente entrando em uma jornada de autodescobrimento e identificação.

Daniel Galera narra esta história de um jeito peculiar. Os seus períodos longos e parágrafos extensos são uma característica muito forte dele. O que torna o texto denso, mas ao mesmo tempo fluido. O livro te envolve de tal maneira que você acaba se vendo transportado para Garopaba, onde você acaba vivendo junto com o personagem aquela vida pacata com suas paixões envolventes e os mistérios do passado, que sempre voltam para nos assombrar.

Barba ensopada de sangue é um livro de uma complexidade belíssima. A carga psicológica dos personagens e a atmosfera criada por Galera, torna a cidade um cenário único feito perfeitamente para contar a história deste nadador cujos mistérios do passado voltarão para assombrá-lo, pois alguns mitos carregam uma certa verdade, mesmo que obscura.

 
Excelente!





Citação favorita: Como é triste falar sobre as coisas, tentar se explicar, tentar se expressar. É só dar nome às coisas que elas morrem.”
O Nadador



Licença Creative Commons
Resenha Barba ensopada de sangue de J. R. Gomes está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://estantedegarotos.blogspot.com.br/.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves

Título: A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves
Autor: Joca Reiners Terron
Gênero: Suspense; Terror
Páginas: 176
Ano: 2013
Editora: Companhia das Letras

Olá munchkins!

O ano novo já passou e as férias de janeiro também, e não tem nada melhor do que voltar a resenhar para vocês. Então, aqui vamos nós!

No Bom Retiro, bairro tradicional de São Paulo, vive o escrivão do 77º Distrito Policial, filho do velho judeu cujo relacionamento nunca fora dos melhores e cuja identidade vive sendo questionada por ele mesmo. Um homem com uma vida monótona e sem muito charme que é dividida entre a delegacia e cuidar do velho pai.

Entretanto, sua vida muda completamente após a morte de seu pai e o encontro com a Criatura. Um ser asqueroso de aparência desagradável. Ela vive em um velho casão entre as sinagogas e as confecções coreanas. A criatura nunca fala e jamais sai de casa, a única pessoa com quem ela tem contato é a senhora X, uma velha e misteriosa enfermeira contratada para cuidar da Criatura.

Durante muito tempo a senhora X seguiu as regras de seu contrato que exigia o total isolamento da criatura, mas em certo dia a senhora X decidiu levar a Criatura para o Nocturama, o zoológico noturno da cidade.

O passeio acontece tranquilamente, mas a chegada de uma forte tempestade e de feras devoradoras coloca todos os visitantes em perigo, principalmente a Criatura, pois ela é o principal alvo delas. E é após o termino dos acontecimentos no Nocturama que a vida de uma enfermeira, um escrivão, um taxista e uma criatura se cruzam. E é através de retalhos que Joca Reiners Terron narra as histórias desses personagens, tecendo a cada capítulo a colcha de retalhos que é A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-neves.

O que mais me chamou a atenção no livro foi o título, ponto. E a forma como o autor narrou a história foi outra coisa que me cativou no livro. Joca tem um jeito peculiar de contar histórias com certo ar irônico e sombrio, mas o ponto forte do livro é a busca de identidade. Por de trás de toda a máscara do suspense e do terror, o autor fala sobre identidade, ou a falta dela. Percebemos isso pelo simples detalhe de os personagens não terem nome. Durante o livro todo os personagens são tratados com substantivos, como a Criatura, o Taxista, a senhora X, o entregador coreano e, no centro de tudo, o escrivão.

É um livro muito bom, com um enredo muito envolvente e um final surpreendente. Leia A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-neves e desvende os mistérios do antigo bairro do Bom Retiro e veja que as criaturas medonhas nem sempre são os predadores deste mundo.

MUITO BOM!





Citação Favorita:
“Vê-los sofrer suas mesquinharias e praticar suas pequenas violências e sua grande crueldade é uma diversão infinita”.

A Cobra



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Resenha A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-neves de J.R. Gomes está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Digam a satã que o recado foi entendido

Título original: Digam a satã que o recado foi entendido
Autor: Daniel Pellizzari
Gênero: Romance
Páginas: 178
Ano: 2013
Editora: Companhia Das Letras

Olá pessoas, eu disse no vídeo do domingo que postaria esta resenha na quinta, mas estou postando hoje. Antes de tudo, preciso deixar claro que este livro não é sobre satanismo, ok? Não se assustem, leiam a resenha e descubram qual recado foi entendido!

Ninguém sabe ao certo o que levou Magnus Factor a estender a sua estadia em Dublin, Irlanda. Talvez fosse pela bela Stefanija? Ninguém sabe dizer ao certo, o que sabemos é que Magnus abriu uma agência de turismo especializada em locais mal-assombrados que não existem. E permaneceu na capital mundial da cerveja escura e das brigas de rua.

Magnus gerência sua agência junto de seus sócios e junto do único irlandês, Bartholomew O’Shaugnessy ou Barry como é chamado pelos colegas de trabalho. Ele é contratado para dar maior credibilidade às histórias horripilantes inventadas por Magnus. Barry é um cara arrogante, insuportável, xenofóbico, homofônico e racista. Sim, ele é tudo isso. Porém, consegue nos fazer rir em alguns momentos.

Simultaneamente, uma seita quer trazer de volta o antigo deus-serpente dos celtas, e é nesta seita que encontramos Demetrius Vidaloo, que irá sacrificar uma jovem virgem para realizar o ritual insano e descabido.

Em meio a milk-shakes, assassinato de velhinhas inocentes, videogames, traficantes gregos, cultos obscuros e terrorismo poético, Magnus se vê em um espiral de loucura e desespero. Mostrando com um bom humor, os relacionamentos e a vidas desses idiotas extraordinários, o que conduzirá o leitor a seguinte conclusão:

“Hoje é o amanhã que ontem nos preocupava, e tudo vai bem”. Isto e que um milk-shake, às vezes, é tudo o que um cara precisa. Além de deixar claro para satã que o recado foi entendido.

Digam a Satã que o recado foi entendido é um ótimo livro, sua narração é intercalada ente os personagens, e é apresentado em prosa, o que é uma delicia.

Entretanto, é um texto muito sensível, principalmente quando o foco narrativo está em Barry, pois ele usa muito palavrão e MUITAS palavras chulas. Além de não usar nenhum tipo de pontuação. Os erros gramaticais incorporam com perfeição a essência de Barry.

Muito Bom!






Citação favorita:
“Estava tudo bem na minha vida. Estava tudo errado, mas tudo errado também era tudo bem.”

Magnus

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